Evidências Covid 19

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Como cuidar de crianças que apresentam síndrome multissistêmica inflamatória decorrente de COVID-19 ?

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Uma via de gerenciamento de consenso nacional para a síndrome multissistêmica inflamatória pediátrica temporariamente associada a COVID-19 (PIMS-TS): resultados de um processo Delphi nacional

FAULHABER, Maria Cristina Brito

HARWOOD, R.; et al. A national consensus management pathway for paediatric inflammatory multisystem syndrome temporally associated with COVID-19 (PIMS-TS): results of a national Delphi process. Lancet Child Adolesc Health, v. 5, n. 2, p. 133-141, fev. 2021 [Epub 18 set. 2020]. DOI: 10.1016/S2352-4642(20)30304-7. Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/lanchi/article/PIIS2352-4642(20)30304-7/fulltext

A síndrome multissistêmica inflamatória pediátrica temporalmente associada a COVID-19 (paediatric inflammatory multisystem syndrome temporally associated with COVID-19 – PIMS-TS) é uma condição relatada pela primeira vez em abril de 2020. Visando desenvolver um consenso nacional no Reino Unido para orientar médicos que cuidam de crianças com PIMS-TS, foram revistos cerca de 140 estudos relacionados à investigação e ao manejo de crianças com a síndrome.

Foram traçados paralelos entre a apresentação clínica da PIMS-TS e outras doenças, incluindo a doença de Kawasaki, (forma completa, incompleta ou atípica, com ou sem dilatação da artéria coronária), a síndrome do choque tóxico, a sepsis viral e, menos frequente, a síndrome de ativação macrofágica (MAS) ou linfohistiocitose hemofagocítica (HLH). Os pacientes com PIMS-TS devem ser categorizados principalmente de acordo com o fenótipo da doença (semelhante à doença de Kawasaki ou não específica). A definição de caso refere-se a uma criança apresentando febre persistente, inflamação (neutrofilia, PCR aumentada e linfopenia), evidências de disfunção de um ou mais órgãos (choque, alterações cardíacas, respiratórias, renais, gastrointestinais ou neurológicas), formas completas ou não de Kawasaki, exclusão de causas microbianas (sepsis bacteriana, síndrome do choque tóxico, infecções associadas com miocardite como enterovírus) e RT-PCR, positivo ou negativo.

O método Delphi consiste em uma técnica de pesquisa qualitativa que funciona em ciclos, onde no primeiro ciclo os especialistas citam opiniões, anonimamente, baseados num questionário dado por um mediador. As respostas são resumidas e mostradas aos especialistas, que observam e verificam se vão ou não mudar de opinião, reconsiderando assim sua resposta. Com o passar dos ciclos, chega-se a um denominador comum sobre o problema. O Limesurvey foi usado como plataforma de coleta de dados para as três fases e reuniões virtuais de consenso utilizaram a plataforma Zoom.

Os médicos foram selecionados devido à sua experiência em seus respectivos campos, experiência clínica com crianças apresentando PIMS-TS, ou seu envolvimento em pesquisa em PIMS-TS, sendo divididos em três painéis. O primeiro painel contou com especialistas pediátricos em doenças infecciosas, imunologia, reumatologia, pneumologia, e farmacêuticos com experiência em terapia com produtos biológicos (72 profissionais, de 25 a 30 de maio de 2020). O segundo painel foi composto por especialistas pediátricos em cardiologia, cuidados intensivos e transporte, e hematologia (56 profissionais de 2 a 6 de junho de 2020). O terceiro painel compreendeu pediatras generalistas, radiologistas e cirurgiões pediátricos (46 profissionais, de 9 a 13 de junho de 2020).

Após realização da história clínica e do exame físico foram feitos exames de sangue e resultados sugestivos de PIMS-TS indicaram proceder a investigações adicionais (painel 1). Pacientes com PIMS-TS devem ser categorizados principalmente de acordo com o fenótipo da doença para avaliação de gravidade e subsequente escolha do melhor local de atendimento do paciente (disponibilidade de realizar, por exemplo, ECMO (extracorporeal membrane oxygenation – oxigenação por membrana extracorpórea, se necessário) (painel 2). O painel 3 descreve o manejo clínico de crianças com PIMS-TS, incluindo uso de imunoglobulinas, metilprednisolona, aspirina, protetores gástricos, terapia biológica e o uso de antiplaquetários e anticoagulantes. É indicada antibioticoterapia venosa empírica em todas as crianças, até obter resultados de hemocultura. Caso a RT-PCR seja positiva, considerar terapia antiviral (remdesivir).

A identificação do fenótipo deve ser o principal método de classificação de crianças com PIMS-TS.

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Como a COVID-19 pode afetar o cérebro e o desenvolvimento das crianças?

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Neuroinflamação e Desenvolvimento Cerebral: Possíveis Fatores de Risco em Crianças Infectadas com COVID-19

GIESTA, Monica Maria da Silva

CHAGAS, L. S.  et al. Neuroinflammation and Brain Development: Possible Risk Factors in COVID-19-Infected Children. Neuroimmunomodulation, v. 28, n. 1, p. 22-28 [Epub 02 Fev. 2021]. Doi: 10.1159/000512815. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33530091/

A COVID-19 costuma afetar crianças de maneira mais suave do que em adultos. Entretanto, em alguns casos, mesmo após uma sintomatologia leve, os pacientes evoluem para síndrome de inflamação multissistêmica e síndrome neuro inflamatória com substâncias pró inflamatórias afetando a função microglial. Outras condições podem a esta se somar como a ingesta elevada de gorduras, o consumo materno de álcool durante a gravidez, assim como o acometimento tireoidiano da mãe durante este período, fato que muitas vezes passa despercebido  e facilita a possibilidade de passagem pela placenta de agentes inflamatórios maternos para o feto. Estudos demonstram que o vírus SARS-CoV-2 tem um tropismo pelas células neuronais, assim como suas células progenitoras. Esta atração se dá pelos receptores celulares da Enzima de Conversão da Angiotensina 2 (ACE2), por invasão nas células gliais após ligação com a Proteína S da membrana viral. Tal fato tem como consequências as manifestações de dor de cabeça, perda do olfato, alterações da consciência, encefalites e síndromes desmielinizantes.

Embora as crianças sejam menos suscetíveis às formas graves, o artigo levanta a questão do seu impacto a longo prazo, uma vez que a estrutura cerebral está em formação nesta faixa etária, e compara esta infecção a outras causadas por diversos vírus RNA, como ZIKA vírus e Citomegalovírus. Aventa a possibilidade de que a inflamação reacional a estes patógenos pode ser pior que a ação direta dos mesmos sobre as células neuronais, pois estimulam a fagocitose de células nervosas que combatem patógenos e auxiliam na eliminação de restos celulares, além de estimularem a neuroplasticidade necessária a saúde cerebral.

Os autores colocam ainda o papel importantíssimo da dieta no controle da resposta imune. O elevado consumo de gorduras, açúcares e alimentos processados pode levar a obesidade e Diabetes Tipo 2, cada vez mais comuns em crianças. Estes são fatores que, por sua vez, levam a uma inflamação tênue, mas persistente, à desregulação dos receptores e, portanto, ao maior risco para desenvolvimento de quadros mais graves pelo SARS-CoV-2. Também predispõem a um desenvolvimento anormal dos circuitos cerebrais, principalmente me crianças até os 7 anos. Outro ponto levantado pelo artigo é o consumo de álcool durante a gravidez, que pode ocasionar, além das diversas síndromes conhecidas, a queda da imunidade nos recém natos.

Como pontos negativos deste artigo alertamos para a metodologia, pois se trata de uma revisão não sistematizada da literatura. Como pontos virtuosos, este trabalho chama a atenção para possíveis consequências a longo prazo da infecção em crianças pelo SARS-CoV-2, mesmo que estas desenvolvam um quadro agudo inaparente ou suave, fato que deve ser relevado e motivo de pesquisas futuras em estudos adicionais.

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Qual a relação entre obesidade e tendência a inflamação e redução da imunidade em crianças?

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Associação entre os níveis circulantes de furina, obesidade e marcadores pró-inflamatórios em crianças

FAULHABER, Maria Cristina Brito

SWÄRD, P. et al. Association between circulating furin levels, obesity and pro-inflammatory markers in children. Acta Paediatr. Jan. 2021 [Epub ahead of print]. Doi: 10.1111/apa.15774. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33486829/

Hoje sabe-se que a obesidade é o segundo maior fator de risco para a gravidade da doença por coronavírus, atrás apenas da idade. O artigo investiga associações entre níveis séricos de furina, obesidade, sobrepeso, gordura corporal, triglicerídeos e marcadores pró-inflamatórios de tecido adiposo ou inflamação sistêmica em uma coorte de crianças, de base populacional sueca. O estudo prospectivo POP (The Pediatric Osteoporosis Prevention) incluiu crianças de quatro comunidades próximas entre si e com nível socioeconômico similar. Participaram 349 crianças, sendo 192 meninos, com idade média de 7,7 anos. Quando atingiram os 9,9 anos de idade, 173 crianças forneceram amostras de sangue venoso para exames, sendo 166 resultados elegíveis para estudo.

Aferiu-se peso, altura e foi calculado o Índice de Massa Corporal (IMC = peso em kg / altura em metros2). Conforme os valores do IMC, as crianças foram classificadas em peso baixo a normal, sobrepeso, ou obesas, de acordo com o IOTF (International Obesity Task Force BMI cut-offs). A massa de gordura corporal total, a massa de gordura do tronco e o total de massa magra corporal foram aferidos por DXA (dual energy X-ray absorptiometry).

Foram dosados laboratorialmente Proteína C Reativa ultrassensível (PCRus), triglicerídeos, furina, leptina, proteína de ligação a ácidos graxos (adipocyte fatty acid binding protein →A-FABP), interleucinas IL6 e IL8. Todos esses marcadores podem estar alterados na vigência de uma inflamação sistêmica e estão associados com aumento do risco de resistência à insulina, com diabetes mellitus tipo 2 e com a progressão da aterosclerose.

A enzima furina é uma protease encontrada em grande quantidade no tecido pulmonar e é usada na clivagem de proteínas. Estudos sugerem que o SARS-Cov-2 usa esse caminho para remodelar suas principais proteínas virais e entrar nas células humanas. Quando essa enzima está em maior quantidade que o habitual ocorre uma capacidade maior de infectar células e do vírus fazer cópias de si mesmo. Níveis circulantes de furina em adultos de meia idade estão positivamente correlacionados com o IMC, com a síndrome metabólica e com um aumento da mortalidade e do risco de diabetes. Seus níveis estão ainda positivamente associados com os níveis de glicose, insulina e colesterol LDL, e negativamente com aos níveis de colesterol HDL.

Estatisticamente foi usada a correlação parcial de Pearson ajustada para idade e sexo, para investigar correlações entre níveis séricos de furina, a antropometria e outros marcadores séricos.

Constatou-se que os níveis circulantes de furina foram mais elevados em crianças com obesidade (62%) e sobrepeso (15%), em comparação com aquelas de peso baixo a normal. Houve correlações positivas entre furina circulante, IMC, massa de gordura corporal total, massa de gordura do tronco, percentual de gordura corporal, triglicerídeos, adipocinas (A-FABP e leptina) e marcadores pró-inflamatórios (IL-6 e PCRus). Não se observou correlações estatisticamente significativas entre furina e IL-8.

A obesidade leva o organismo a um processo inflamatório crônico, o que reduz as defesas contra o vírus. Além disso, as células gordurosas têm uma tendência a capturar os vírus da COVID-19 e mantê-los presos na corrente sanguínea por mais tempo. Isso prolonga o tempo de infecção nos pacientes obesos. Frequentemente pacientes obesos têm menor capacidade respiratória (apnéia do sono, maior cansaço, etc.), aumentando a probabilidade de evolução para quadros respiratórios mais graves.

Os resultados do presente estudo sugerem que níveis mais elevados de furina circulante podem ser uma ligação entre obesidade, entrada do vírus nas células pulmonares e COVID-19 grave em crianças.

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Como conduzir a abordagem e o manejo clínico de crianças com COVID-19 ?

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COVID-19 em Crianças: Abordagem Clínica e Manejo

FAULHABER, Maria Cristina Brito

SANKAR, J.; et al. COVID-19 in Children: Clinical Approach and Management. Indian J Pediatr., v. 87, n. 6, p. 433-442, Jun. 2020. Doi:10.1007/s12098-020-03292-1. Epub 2020 Apr 27. Disponível em: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/32338347

O artigo revê os casos de COVID-19 até abril de 2020 na Índia, quando se procurava estabelecer a melhor forma de abordagem e manejo clínico da doença em crianças. Nelas as manifestações parecem ser mais brandas e os sintomas clínicos são semelhantes a qualquer infecção viral respiratória aguda. Os modos de transmissão são a inalação direta de gotículas infectadas (produzidas durante a tosse ou espirro por pessoa infectada) e contato direto com superfícies e fômites contaminados por secreções respiratórias infectadas. O vírus foi também isolado em amostras de fezes.

A COVID-19 deve ser suspeitada em crianças sintomáticas que viajaram nos últimos 14 dias, ou em crianças hospitalizadas com doença respiratória aguda grave, ou naquelas assintomáticas, e que tiveram contato direto com um caso que foi confirmado. Um caso confirmado é aquele em que o exame laboratorial para SARS-CoV-2 é positivo, independentemente dos sinais e sintomas.

As três series dos casos pediátricos iniciais no estudo relataram tosse (48,5%), eritema faríngeo (46,2%), febre (41,5%), respiração rápida (28,7%), diarreia (8,8%), rinorréia (7,6%), fadiga (7,6%) e vômitos (6,4%). A frequência de infecção assintomática, de infecção do trato respiratório superior e de pneumonia foi de 15,5%, 19,3% e 64,9%, respectivamente. Uma criança morreu. Pacientes com manifestações graves geralmente desenvolvem hipoxemia e hipoperfusão no final da primeira semana. As complicações da síndrome de dificuldade respiratória aguda incluem miocardite, choque séptico, coagulação intravascular disseminada, lesão renal e disfunção hepática. A mortalidade de crianças entre 0-9 anos e 10-19 foi 0% e 0,18% respectivamente.

O padrão ouro de diagnóstico é pelo teste RT-PCR para SARS-CoV-2 RNA, idealmente colhido por swab nasofaríngeo. Em crianças submetidas a ventilação mecânica, a coleta por lavagem bronco alveolar (BAL) mostrou sensibilidade de 93% quando comparada a coleta por expectoração (72%), esfregaço nasal (63%), escovado brônquico (46%), esfregaço faríngeo (32%), fezes (29%), sangue (1%) e urina (0%).

Indicações para internação: 1) dificuldade respiratória; 2) saturação O2 (Sat O2) < 92% em ar ambiente; 3) choque/má perfusão periférica; 4) pouca aceitação oral; 5) letargia e 6) convulsões/encefalopatia. A investigação em pacientes internados inclui exames de imagem como tomografia computadorizada de tórax, que em 32,7% dos casos mostrou opacidades de vidro fosco, hipotransparências irregulares localizadas (18,7%), hipotransparências irregulares bilaterais (12,3%) e anormalidades intersticiais (1,2%). O hemograma demonstra leucopenia e linfopenia, menos acentuados que em adultos.

O tratamento nos casos leves (as crianças não têm dificuldade respiratória, se alimentam bem e a SO2 é > 92%) consiste no isolamento domiciliar, uso de paracetamol SOS (10 – 15 mg/kg/dose) a cada 4-6 horas em caso de febre, evitar antinflamatórios não hormonais como ibuprofeno, hidratação oral, explicar aos pais os sinais de gravidade e usarem máscara quando tiverem contato.

O manejo dos casos hospitalizados consiste em: a) Suplementação de oxigênio para manter Sat O2> 92%; b) Hidratação venosa adequada; c) Paracetamol para febre; d) Hemocultura; e) Antimicrobianos empíricos (por exemplo, Ceftriaxona) / oseltamivir na suspeita de influenza; f) Monitorização clínica rigorosa. Era preconizado o uso de hidroxicloroquina por 5 dias e lopinavir / ritonavir por 14 dias, além de transfusão de plasma, azitromicina, interferon e ribavirina.

Os critérios para UTI são: a) necessidade de ventilação mecânica; b) choque exigindo suporte vasopressor; c) piora do estado mental e d) síndrome de disfunção de múltiplos órgãos.

São colocadas ainda no estudo as indicações de intubação, como realizar o procedimento e o tratamento de suporte em crianças gravemente enfermas.

É reforçada a orientação de manter a amamentação usando máscara, além de orientações sobre convivência doméstica com alguém com COVID-19 e medidas de saneamento ambiental.

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Como a COVID-19 afeta crianças com doenças reumáticas?

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Implicações da COVID-19 na reumatologia pediátrica

FAULHABER, Maria Cristina Brito

BATU, E.D.; ÖZEN, S. Implications of COVID-19 in pediatric rheumatology. Rheumatol Int. v. 40, n. 8, p. 1193-1213, ago. 2020. Doi: 10.1007/s00296-020-04612-6. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32500409/

O artigo tem como objetivo fornecer uma visão geral da pandemia por COVID-19 sob a perspectiva do reumatologista pediátrico. A revisão sistemática da literatura avaliou 231 pacientes com doenças reumáticas que apresentaram COVID-19, entre as quais apenas uma era criança, com seis meses, com doença de Kawasaki. A taxa de mortalidade foi de 3,9% em decorrência da COVID-19. Embora a infecção por SARS-CoV-2 seja leve na maioria dos pacientes afetados, em alguns casos pode causar sintomas clínicos graves, como síndrome do desconforto respiratório agudo ou tempestade de citocinas, levando à morte. A tempestade de citocinas resulta da ativação imunológica descontrolada que leva à hiper-inflamação e doença de múltiplos órgãos. Até o momento, os dados atuais não comprovaram que imunossupressão seja um fator de risco específico para doença grave como SARS. Muitos dos medicamentos que estão sendo testados no tratamento de COVID-19 são os mesmos usados pelos pacientes com doenças reumáticas.

A doença reumática subjacente mais comum foi lupus eritematoso sistêmico (LES) (n=117) seguido por artrite reumatoide (n=45).

A razão exata pela qual as crianças são menos afetadas ainda não foi esclarecida. Fatores que podem explicar este fato: 1) Crianças viajam menos que os adultos, o que pode ser uma proteção; 2) Crianças não fumam e o trato respiratório é menos exposto à poluição do ar; 3) Comorbidades como hipertensão e diabetes mellitus tipo 2 não são frequentes entre elas; 4) As vias respiratórias superiores das crianças são geralmente colonizadas com uma variedade de micro-organismos que podem competir com SARS-CoV-2; 5) A resposta imune inata é mais robusta enquanto o sistema imunológico adquirido (ou adaptativo) é mais imaturo em comparação com adultos – esta última requer exposições anteriores aos antígenos e portanto leva tempo para se desenvolver após o primeiro contato com um novo invasor; 6) O padrão de expressão de ACE2 (proteína presente no organismo que participa do sistema renina-angiotensina promovendo vasodilatação e diminuição da pressão arterial) pode ser diferente em crianças e 7) Algumas vacinas infantis podem fornecer um efeito protetor contra COVID-19.

São citadas duas vacinas capazes de reduzir os danos causados por COVID-19: BCG e MMR. Análises epidemiológicas mostraram que a incidência de COVID-19 e a taxa de mortalidade foram significativamente menores em países com programas de vacinação BCG. Após vacinação com MMR constatou-se em alguns casos que os títulos de IgG contra a rubéola aumentaram na infecção por SARS-CoV-2, sugerindo uma homologia estrutural entre rubéola e SARS-CoV-2. Surgindo uma vacina contra COVID-19 é importante analisar a resistência cruzada com outras vacinas, além de levar em conta não ser possível prever a rapidez com que o sistema imunológico desenvolverá uma resposta que irá proteger contra a COVID-19 (se houver).

É abordado ainda o tratamento de COVID-19 em pacientes com doenças reumáticas: a) drogas antivirais não foram eficazes; b) anti-inflamatórios não esteróides: apenas um estudo demonstrou que ibuprofeno poderia aumentar a expressão de ACE2; c) glicocorticóides: metilprednisolona parece diminuir o risco de morte em pacientes com síndrome de dificuldade respiratória aguda; d) hidroxicloroquina: usada no tratamento de LES, tem diversos efeitos colaterais; e) inibidores da janus quinase: enzimas pouco usadas em pediatria no tratamento de artrite idiopática juvenil; f) drogas dirigidas a citocinas; g) plasma convalescente: imunização passiva, necessita de estudos pareados.

Embora a doença geralmente tenha um curso leve em crianças, elas não são imunes à COVID-19 e diferentes manifestações clínicas como a síndrome de Kawasaki têm sido relacionadas à infecção por SARS-CoV-2.

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Como se caracteriza o quadro clínico em crianças e com quais infecções associadas?

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Coinfecção e outras características clínicas da COVID-19 em crianças

FAULHABER, Maria Cristina Brito

Wu,Q.; et al. Coinfection and Other Clinical Characteristics of COVID-19 in Children. Pediatrics, v. 146, n. 1, Jul. 2020. DOI: 10.1542/peds.2020-0961. Disponível em: https://pediatrics.aappublications.org/content/early/2020/06/08/peds.2020-0961

Trata-se de um estudo retrospectivo com 74 crianças realizado entre 20 de janeiro e 27 de fevereiro em dois hospitais chineses objetivando determinar características clínicas e epidemiológicas de pacientes pediátricos com COVID-19 além de eventuais comorbidades associadas. Foram coletados dados epidemiológicos detalhados, avaliando se tinha havido contato domiciliar com casos confirmados de adultos (95,6%), sequência de contaminação dentro da família (27,7% foi o 2º caso, 35,4% o terceiro, 21,5% o quarto, 13,9% o quinto e 1,5%  o sexto caso) e se a criança infectada havia transmitido o vírus para outras pessoas. A confirmação laboratorial foi feita pela positividade da RT-PCR para SARS-CoV-2 em swab nasofaríngeo.

O diagnóstico foi feito de acordo com os critérios definidos pela Sociedade de Pediatria Chinesa (SPC) em: 1) infecção assintomática (RT-PCR positivo para SARS-CoV-2, sem sinais clínicos, sem alterações radiológicas) [27,0%]; 2) infecção aguda do trato respiratório superior (febre, tosse, dor de garganta, congestão nasal, fadiga, cefaleia e/ou mialgia, sem pneumonia ao Rx, sem septicemia) [34,4%]; 3) pneumonia leve (sem sintomas clínicos ou com poucos sintomas, como febre e tosse, imagem radiológica sugestiva de pneumonia sem severidade) [39,2%]; 4) pneumonia severa (frequência respiratória ≥70 incursões respiratórias por minuto {irpm} em crianças < 1 ano ou  ≥ a 50 irpm em crianças ≥ 1 ano, saturação O2 <92%, hipóxia, cianose, alterações de consciência, recusa alimentar e sinais de desidratação) [1,4%] e 5) casos críticos (aqueles que indicaram necessidade de CTI: falência respiratória, choque séptico ou combinação com falência de órgãos) [0%].

A idade média foi 6 anos (1 mês a 15 anos), 59,5% meninos, 32,4% apresentaram tosse e 27,0% febre, os sintomas mais comuns no início da doença; 21,6% apresentaram roncos e crepitações na ausculta pulmonar. Entre os achados laboratoriais 31,1% apresentou alteração da leucometria, 13,5% da contagem de linfócitos, 17,6% aumento da PCR (máximo de 39,0 mg/L) e 35,7% da VHS; 46% das crianças foram triadas para outros patógenos que podem causar infecção respiratória e destas 51,4% apresentaram coinfecção (84,2% por Mycoplasma pneumoniae (MP), 15,8% por vírus sincicial respiratório, 15,8% pelo vírus de Epstein Bar, 15,8% por citomegalovírus e 1% por influenza). A análise de SARS-CoV-2 em amostras fecais foi positiva em 13,5% das crianças e mesmo após a negativação do vírus nas amostras respiratórias o exame permaneceu positivo nos exames fecais até mesmo 4 semanas após o início do quadro. Sabe-se que o RNA do SARS-CoV-2 pode ser detectado nas fezes de pacientes assintomáticos ou com história de diarreia prévia.

As análises estatísticas foram feitas usando SAS software (SAS 9.4; SAS Institute, Inc, Cary, NC).

Quando da admissão, 5,4% realizaram tomografia computadorizada de tórax (TCT) sem anormalidades. Alterações radiológicas foram vistas em 50%, sendo 21,6% no pulmão esquerdo, 35,1% no direito e em 43,2% bilaterais.  Nas crianças com alterações na TCT, 81,1% tinham sintomas clínicos. Apenas 12,2% mostraram alterações típicas de COVID-19 na TCT, incluindo imagens em vidro fosco.

Os pacientes foram tratados de acordo com o protocolo da SPC com interferon, inalação, drogas antivirais e medicina tradicional chinesa. As crianças com MP usaram azitromicina oral ou intravenosa.

Cerca de 27,0% eram portadoras assintomáticas de SARS-CoV-2 e 71,6% dos casos considerados leves a moderados apresentaram manifestações diversas.        

A mortalidade em adultos é cerca de dez vezes maior. O motivo da doença ser menos grave em crianças permanece a esclarecer, sendo talvez devido ao fato de a imunidade inata responder melhor que a imunidade adquirida.

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Quais as características e os riscos da síndrome inflamatória de múltiplos sistemas derivada da COVID-19 em crianças e adolescentes?

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Síndrome Inflamatória Multissistêmica em Crianças e Adolescentes nos EUA

FAULHABER, Maria Cristina Brito

FELDSTEIN, L. R. ;  et al. Multisystem Inflammatory Syndrome in US Children and Adolescents. N Engl J Med, Jul. 2020; DOI: 10.1056/NEJMoa2021680. Disponível em: https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2021680

Constatada a importância epidemiológica e o curso clínico dos processos inflamatórios multissistêmicos em crianças (síndrome inflamatória multissistêmica em crianças – SIM-C), com uma significativa associação temporal à doença COVID-19, os autores buscam neste artigo avaliar as implicações clínicas e na saúde pública desta síndrome.

Foram aplicados questionários padrão de março a maio de 2020 em centros de saúde pediátricos de 26 estados nos EUA, tendo como definição de caso a presença de seis critérios: doença grave que levou à hospitalização; idade inferior a 21 anos; febre > 38.0ºC ou com duração de pelo menos 24 horas; evidência laboratorial de processo inflamatório; envolvimento sistêmico de múltiplos órgãos (pelo menos dois) e evidência de infecção com síndrome respiratória aguda severa, causada pelo coronavírus 2 (SARS-CoV-2: PCR transcriptase reversa positiva; ou teste para anticorpos positivo; ou exposição a indivíduos com COVD-19 no mês anterior) {30 % mostraram evidências epidemiológicas de contato com pessoa com COVID-19}.  

A análise estatística foi feita usando o software R, versão 3.6.1 (Projeto R para computação estatística).

A idade média das 186 crianças com SIM-C foi 8,3 anos, 62% meninos, 73% previamente saudáveis, 70% com exames laboratoriais positivos para SARS-CoV-2 e 88% foram hospitalizadas após 16 de abril. O envolvimento do trato gastrointestinal ocorreu em 92% das crianças, do sistema cardiovascular em 80% (91% realizou ecocardiograma e 73% teve alterações de BNP – peptídio natriurético do tipo B, hormônio liberado pelos ventrículos sempre que há agressão cardíaca), do sistema hematológico em 76%, do muco-cutâneo em 74% e do sistema respiratório em 70%. A média de internação foi 7 dias, com 80% das crianças necessitando de cuidados de centro de tratamento intensivo, 20% de ventilação mecânica, 48% de drogas vasoativas e 2% faleceram (4 pacientes entre 10 a 16 anos de idade, dois deles previamente hígidos). Aneurismas da artéria coronária ocorreram em 8%, e 40% mostraram características semelhantes à doença de Kawasaki – vasculite que ocorre predominantemente na infância, caracterizada pela possibilidade de formação de aneurismas. Embora sua causa seja ainda desconhecida, há fortes evidências de alguma infecção prévia ou em atividade. A SIM-C é considerada uma doença Kawasaki “like”. Alguns dos sinais e sintomas desta doença como febre, eritrodermia e descamação tardia também podem ser vistos na síndrome do choque tóxico, podem envolver múltiplos órgãos e podem estar associados a outros vírus.  Nos EUA cerca de 5% das crianças com Kawasaki apresentam choque cardiovascular, levando à necessidade do uso de drogas vasoativas em comparação aos 50% dos pacientes com SARS-CoV-2 avaliados neste artigo. O início de uma infecção grave por COVID-19 coincide com o declínio da carga viral no trato respiratório e aumento dos marcadores inflamatórios.

Cerca de 92% das crianças apresentaram elevações em pelo menos quatro marcadores indicativos de processo inflamatório. O uso de terapias imunomoduladoras foi comum: imunoglobulina intravenosa em 77%, glicocorticoides em 49% e inibidores da interleucina 6 ou 1RA em 20%, estas últimas substâncias sabidamente envolvidas na evolução da resposta imune inflamatória que ocorre em pacientes com comprometimento respiratório grave.

Embora ainda não se possa estabelecer causalidade, o estudo mostrou fortes evidências que as crianças foram infectadas pelo SARS-CoV-2 no mínimo 1 a 2 semanas antes do início da SIM-C.

Os autores concluem que SIM-C em crianças associada à SARS-CoV-2 pode levar a doença grave potencialmente fatal em crianças e adolescentes previamente hígidos.

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